ERA VARGAS
Professor
Wladmir Coelho
- Revolução de 1930
- O governo de Getúlio
Vargas (1930/1945)
- O nacionalismo
econômico
- Análise da formação do
povo brasileiro
- O Brasil na 2ª Guerra
Mundial
- O Imperialismo e a
Guerra Fria
- O governo do Marechal
Eurico Gaspar Dutra
A manutenção do
modelo econômico de base colonial no Brasil apresenta-se fundado na associação
entre o controle e concentração da propriedade rural, na forma de organização
do trabalho – escravo ou livre - representando este último não necessariamente a
superação do trabalho servil considerando a existência, notadamente no campo,
de relações amparadas em práticas que apesar de desvincular a propriedade do
corpo do trabalhador de sua força de trabalho associam ambas ao poder do
latifúndio agroexportador.
Os momentos de crise
econômica internacional exemplos que remontam as guerras napoleônicas, passando
pela Primeira Guerra Mundial, a crise de 1929 ou Segunda Guerra Mundial revelam a
necessidade de substituição da importação de bens de consumo direcionando o
capital destinado a compra destes produtos ao investimentos em pequenas
fábricas, oficinas de reparo e destas a contratação de trabalho assalariado e
abertura de empreendimentos pequenos, médios e outros de maior vulto como
aqueles observados no setor de tecidos.
A vitalidade destas
atividades empresariais apresentam uma duração associada a crise internacional
e não constituem uma ação planejada do Estado brasileiro visto o predomínio das
classes dominantes na condução dos governos e deste o controle das instituições
do Estado interessadas estas em manter a tranquilidade tradicional de seus
ganhos obtidos na máxima exploração do trabalho tradição esta, devemos
observar, mantida mesmos nas condições urbanas levando a constantes revoltas
populares a exemplo das greves recurso tradicionalmente tratado, pelas classes
dominantes, como “caso de polícia” punidos, os líderes dos trabalhadores, com
prisões, perseguições e morte.
Com relação a
repressão dos trabalhadores “livres” no campo e da cidade devemos observar uma
nítida associação com as práticas e métodos de subordinação utilizadas ao longo
dos 300 anos de legalidade da escravização no Brasil naturalizando a
criminalização de qualquer movimento reivindicatório entendido como ameaça a
ordem “natural” da sociedade, a saber, a subordinação dos trabalhadores aos
interesses das classes dominantes.
O Brasil dos anos 1930 apresenta elementos da ordem imperialista – subordinação aos interesses das classes associadas a exportação – revelando, todavia, uma classe média, a intelectualidade e trabalhadores urbanos em posição de exigir uma organização econômica no mínimo em contradição ao modelo predominante. Estas contradições revelam-se desde o início do século 20, através das críticas de escritores como Lima Barreto, a submissão das classes dominantes brasileiras ao imperialismo o desprezo destas pela cultura nacional buscando simplesmente a cópia de um pensamento e comportamentos importados da França.
Esta critica assume, com relação aos pensadores da formação do Brasil,
diferentes correntes apresentando desde justificativas amparadas no racismo
como foi o caso de Oliveira Viana, liberais como Gilberto Freyre e sua mítica democracia racial
decorrente do contato do africano com a cultura europeia “civilizando” o negro
a partir do acesso a cultura superior portuguesa, segundo Freyre, um povo
aberto ao processo de miscigenação resultando este processo em aproximações
criando os elementos culturais desprovidos de segregação racista
representados no contato entre a Casa Grande e a Senzala. Veja neste ponto um
entendimento a respeito da formação nacional, ao contrário da tese da
inferioridade racial, desprezando a cultura dos diferentes povos africanos
valorizando a crença na superioridade cultural europeia elemento que reduz os
estudos relativos a nossa formação a necessidade de criar os meios de uma
espécie de aculturamento ou cópia da cultura considerada superior uma intenção
detectada e criticada por Lima Barreto antes mesmo dos trabalhos de Gilberto
Freire.
Este
modelo de justificativa do atraso econômico brasileiro e deste a extrema
pobreza, a fome, a falta de direitos básicos como alimentação, emprego e moradia
recebeu de estudiosos como Juliano Moreira e Manuel
Querino
trabalhos de cunho cientifico nos quais contestavam-se as teorias da inferioridade
racial ou existência de uma sub-raça nacional em decorrência da mestiçagem.
Manuel Querino contribui de forma fundamental para a demonstração da
importância do negro no processo de colonização, formação cultural e econômica
do Brasil.
Percebam
o quanto o debate a respeito da formação do Brasil ainda no início do século
20 ao questionar as razões do atraso econômico nacional encontram elementos
fundantes das relações sociais na forma de subordinação econômica da antiga
colônia atravessando este modelo o primeiro reinado, as regências, o segundo
reinado permanecendo ao longo da república com transformações conforme
verificamos neste texto.
Os
anos 1930 revelam, por isso mesmo, a presença de contestação e busca de
superação do atraso aprofundado em função da crise capitalista mundial,
contudo, as forças econômicas dominantes continuam ligadas aos elementos
tradicionais de exportação e fundadas no controle da propriedade da terra
apresentando, devemos observar, uma fratura entre seus segmentos resultando
deste uma aliança com setores da classe média urbana – civil e militar –
desaguando esta ruptura na Revolução de 1930.
O
período iniciado a partir da Revolução de
1930 e ascensão de Getúlio Vargas ao governo guarda, inicialmente,
algumas semelhanças com as fases de industrialização anteriormente apontadas
notadamente em relação a crise econômica mundial do final da década e 1920,
contudo as políticas econômicas do período apresentam avanços significativos no
aspecto relativo a prática da simples industrialização por substituição de
importação revelando um processo de superação do atraso a partir da intervenção
do Estado na economia. Vejam neste ponto a necessidade de reorganização do
Estado antes subordinado ao simples atendimento dos interesses dos exportadores
agora necessitando de instrumentos inclusive empresariais para garantir os
meios necessários para implantação de indústrias diminuindo, desta forma, a
dependência da importação. Este processo não apresenta uma ruptura com a forma
tradicional amparada na grande propriedade, ao contrário, busca uma associação
inclusive utilizando, em determinada medida, os capitais daqueles cafeicultores.
Este
modelo será conhecido como desenvolvimentismo e vai marcar as 7 décadas
seguintes da história brasileira apresentando distinções ora com maior presença
do capital, inclusive estatal, nacional ora com maior participação estrangeira.
O modelo iniciado por Vargas, contudo, permanece em termos gerais recebendo as
aplicações de políticas intervencionistas ao longo deste tempo até sua
derrocada em processo iniciado a partir do final dos anos 1990, com intervalos
conhecidos como “neodesenvolvimentismo”, apresentando uma intensificação a
partir de 2016. Veja que o termo “Era Vargas” não encontra-se restrito ou
confundido com “governo Vargas” superando mesmo a morte deste governante.
Neste contexto devemos recorrer, para analisar a figura de Getúlio Vargas, ao antropólogo Darcy Ribeiro que aponta a condição autocrática de Vargas aspecto comum aos líderes da América Latina que assumem o poder em tempos de crise. Em Vargas não vamos encontrar a figura de um racista ou adepto da simples transposição de cultura europeia como forma de superação do atraso, mas alguém apontando para uma proposta economicamente nacionalista aplicada de forma autoritária incluindo a vigilância das forças empregadas no trabalho, no controle da produção tendendo ao processo de planejamento econômico. Este tipo de prática não será exclusividade de Vargas, conforme afirmamos anteriormente, e retomando Darcy Ribeiro devemos observar no legado desta alguns avanços decorrentes das contradições expostas e mesmo a superação das barreiras para a organização dos trabalhadores em suas lutas.
A ditadura do Estado
Novo representa esta condição ao suprimir as liberdades políticas incluindo
aquelas relativas a organização dos trabalhadores através da subordinação
destes ao Estado. Temos ainda o incentivo a organização dos grupos privados em
associações de pressão além da manutenção do modelo de ocupação da terra
fundado na grande propriedade agrícola.
Este modelo de
alianças apresentou para sua aceitação a violência, a repressão aos
trabalhadores, o maior controle do Estado da produção, a manutenção do apoio
oficial aos grandes proprietários revelando, por outro lado, aspectos relativos
a implantação de uma política trabalhista moderna contendo algumas das antigas
reivindicações dos movimentos operários e apoio aos projetos empresariais
incluindo a criação das legislações de proteção e garantia a matéria-prima, a
exploração e distribuição desta a partir de órgãos estatais visando o melhor
preço.
O modelo
autoritário, nacionalista fundamenta-se, deste modo, em propostas de
modernização do Estado criando os meios de superação da intervenção direta dos
chefes políticos – notadamente os chamados coronéis – criando a necessidade de
recrutamento mais amplo dos funcionários públicos surgindo assim os concursos
públicos como meio de acesso as diferentes carreiras. Como sabemos no caso
brasileiro o número de analfabetos atingia, ao logo das primeiras 3 décadas do
século 20, mais de 70% da população praticamente restringindo, neste caso, a
baixa classe média, o acesso aos cargos públicos apresentando esta condição não
mais uma associação ao apadrinhamento. Observem neste caso a possibilidade de
valorização do discurso liberal da impessoalidade nas atividades destes
funcionários concursados em lugar da antiga prática do favorecimento em
decorrência dos favores oferecidos pelo chefe político.
Outro aspecto a ser observado revela-se
no controle dos recursos minerais tenham estes a condição inclusive energética.
Neste sentido a partir da Constituição de 1934 o Governo de Getúlio Vargas inicia o processo de
controle do uso da água, dos minérios acrescido dos primeiros controles
efetivos para exploração petrolífera. O elemento fundamental para este controle
foi a efetiva separação entre a propriedade do solo e subsolo passando esta
última à União aspecto a possibilitar a criação dos meios necessários a
exploração destes recursos a partir dos interesses de uma política econômica
nacional desvinculada das determinações dos grandes grupos estrangeiros que até
aquele momento determinavam a forma de exploração.
Neste sentido temos
a criação da Companhia
Vale do Rio Doce em 1942 um ano depois da oficialização da
primeira grande siderúrgica brasileira a Companhia
Siderúrgica Nacional em Volta Redonda no Estado do Rio de
Janeiro. Estas duas empresas controladas pelo Estado brasileiro possibilitaram
o gerenciamento da base da produção no setor siderúrgico naquele momento
insignificante existindo, quanto a exploração mineral, a destinação pura e
simples a exportação. Este setor da produção denomina-se indústria de base e
constitui, como indica o termo, elemento fundamental para as indústrias que
maior número de empregos geravam incluindo a automotiva, aeronáutica, marítima
com desdobramentos significativos na construção civil.
Outro aspecto a ser
observado trata-se das primeiras iniciativas de autonomia energética
decorrentes do necessário controle do petróleo brasileiro cuja ocorrência no
Brasil foi negada em função dos interesses das grandes empresas petrolíferas
notadamente aquelas instaladas nos Estados Unidos criando, este fato, um atraso
ainda hoje percebido. Observe que a 2ª Guerra Mundial inicia-se dois anos após
a implantação da ditadura do Estado Novo revelando o conflito a fragilidade
brasileira em relação a segurança energética.
Ao longo do conflito
internacional o Brasil foi privado do fornecimento de gasolina e demais
derivados do petróleo, o país não possuía refinarias, gerando limitações
inclusive no setor militar, nos transportes públicos, na distribuição de alimentos.
Este fato acentuou as antigas criticas de defensores da exploração petrolífera
no Brasil que mesmo após a criação do Conselho
Nacional do Petróleo em 1939
não avançava em grande parte por obstrução dos chamado cartel
das 7 irmãs.
A chamada Era
Vargas, como é possível observar, vai criar os fatores básicos para a superação
do atraso nacional fundada em uma aliança entre o Estado, segmentos da
burguesia nacional, acordos trabalhistas incialmente concretizados a partir de
um modelo autoritário. A prática, a forma de organização econômica getulista
conduz a políticas nacionalistas apresentando esta as contradições de um modelo
tradicionalmente amparado na forma colonial e desta forma dependente do capital
externo revelando a sua fragilidade.
A queda de Vargas
após o final da 2ª Guerra Mundial é apontada na historiografia tradicional como
decorrência de “novos tempos” democráticos desprezando, todavia, o conflito
existente entre os setores nacionalistas e aqueles ligados à exportação
tradicional incluindo os grandes proprietários de terras e agentes comerciais.
Para entender melhor este quadro basta olhar para a Europa e manutenção dos
regimes fascistas, com apoio dos Estados Unidos, de Antônio Oliveira Salazar em
Portugal e do General Francisco Franco na Espanha ambos comprometidos com a
expansão das empresas estadunidenses na Europa a partir do Plano
Marshall.
Os conflitos entre
os setores da burguesia nacional, a crescente organização e mobilização dos
trabalhadores urbanos somados a proposta nacionalista simbolizada na Lei Malaia abalava a estrutura de poder no Brasil verificando-se ao
final do Estado Novo uma tendência de aproximação de Vargas com setores mais
progressistas incluindo uma crítica a forma imperialista de intervenção dos
Estados Unidos nas questões internas do Brasil. Veja bem: esta critica de
Vargas não apontava em momento algum para a ruptura de relações entre o Brasil
e os Estados Unidos, contudo revelava uma intenção de maior autonomia e
valorização da soberania nacional.
Esta intenção de
autonomia em momento posterior a 2ª Guerra Mundial não agradava ao imperialismo
naquele momento interessado em barrar ou derrotar a União Soviética um processo
longo denominado de Guerra Fria. A derrubada do Estado Novo implicou em ação
militar e implantação de políticas de aprofundamento das relações de
dependência ou subordinação aos interesses estadunidenses fortalecendo, deste
modo, as práticas associadas aos grandes proprietários rurais, aumento das
importações, repressão aos trabalhadores e alteração das políticas econômicas nacionalistas
do governo do marechal Eurico Gaspar Dutra.
LEITURA
.jpg)


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Ao comentar não esqueça de incluir o seu nome completo e turma.